Meu filho,
Está chegando
novamente o
Dia dos
Pais.
Ainda ontem, enquanto o
acompanhava na caminhada que fizemos, notei fios
de cabelos brancos em
você.
O tempo é mesmo
implacável; nós é que nem percebemos a sua
passagem.
Parece que foi ontem o dia em que
o vi pela primeira vez, recém-chegado a este
mundo, frágil e desajeitado, como se a
me dizer:
"Papai, eu estou
aqui!"
Gostaria de contar-lhe um
sonho que tive na noite
passada, com
certeza inspirado no lindo texto de
Rubem Alves, intitulado "A Menina e o Pássaro
Encantado", do livro "Cantos do PássaroEncantado"
(editora Verus),
sobre o nascimento,
morte e ressurreição do
amor, falando de um Pássaro que habitava uma
gaiola, cuja porta era mantida sempre
aberta, a fim de que, vez ou outra, ele
pudesse sair em liberdade, voando em busca de
novos lugares e novas experiências, retornando
sempre que sentisse saudades, ocasiões em
que exibia em suas penas as cores
dos lugares por onde passou, fazendo alegre a
Menina que o estimava como seu melhor
amigo.
Em meu sonho, um pai me falava
do amor que sentia por um filho que resolvera
viajar a um país distante, e da saudade que
estava sentindo, embora soubesse que estava
perto a hora em que deveria
voltar.
O relato pretendia ilustrar
argumentos sobre a certeza de que, um dia, a morte
nos fará entristecidos diante de
uma grande separação, na ante-sala das
alegrias de cada novo
reencontro.
Fiquei imaginando como
seria bom se também a você fosse possível,
vez ou outra, alçar altos vôos solos, nas asas da
liberdade, para que também nós dois pudéssemos
experienciar rituais de partidas e chegadas, a fim
de que um dia não venhamos a ser pegos
de surpresa, quando chegar a hora do grande
adeus.
Realmente, pode-se dizer que
aquele filho se assemelha ao Pássaro
Encantado do conto de Rubem Alves, eis
que sai livremente quando deseja e
sempre sabe a hora em que
deve voltar.
Ao contrário, você,
meu filho, por ter aportado neste mundo com
necessidades especiais, assemelha-se mais a um
Pássaro Ferido, confiado
por Deus aos meus cuidados e
proteção, sendo-lhe
permitido tão somente ensaiar breves vôos
rasantes, por entre as árvores do sítio
da escola que frequenta, e de onde
é também aguardado com muito amor e
saudade, em cada retorno seu à
nossa casa.
Por isso, meu
filho, às vésperas de mais um Dia dos
Pais, resolvi contar-lhe esse sonho que tive na
noite passada e do qual me lembrei ao
contemplar fios brancos em seus cabelos,
evidenciando que nós dois estamos
envelhecendo.
Quantos pais, na minha
idade, podem ainda dar-se ao luxo de
participar de festas de carinho nas escolas de
seus filhos, quase quarentões, por ocasião dos
dias dos Pais, das Mães, nas festas juninas e
nos Natais?
Não faz mal que a sua formatura
nunca tenha feito parte desse
calendário festivo.
A propósito do
sonho, lembrei-me de novamente
agradecer a Deus, pela oportunidade de ter
você aqui, como verdadeiro anjo tutelar
de nossa família, ajudando-nos a compreender
que somente os desafios do
caminho são capazes de nos fazer progredir,
em aprendizado e espiritualidade, tornando-nos um
pouco melhores, a cada dia.
Afinal de
contas, ao longo dos seus trinta e seis anos, a
sua presença só nos tem fortalecido
e ajudado,
ensinando-nos a assimilar novos e
importantes valores, mercê de um cotidiano
exercício de amor, acolhimento, dedicação,
compreensão, renúncia, gratidão, paciência e
esperança.
Desde
a hora em que o vi pela
primeira vez, aceitei com humildade a incumbência
que Deus me confiou, de recebê-lo como filho
do meu coração, para amá-lo e protegê-lo,
do jeito que você é,
semelhante a um Pássaro
Ferido.
E também abracei
com serena alegria a rotina de encaminhá-lo
diariamente ao seguro bosque das árvores de sua
escola, para seus ensaios de breves e desajeitados
vôos, em busca de liberdade.
E
se algo devesse pedir a Deus, no próximo Dia
dos Pais, seria no sentido de não permitir
que você parta desta vida antes de
mim, ousando sair sozinho pela porta aberta
de sua gaiola, quando chegar a hora da
nossa grande separação, porque ficarei sem
ninguém a quem contar os meus
sonhos.
Mas, caso eu tenha que seguir
viagem antes de você, que eu possa
esperá-lo no lugar onde estiver, guardando o
coração cheio de saudade e amor, até o momento de
novamente poder abraçá-lo, quando você
por lá aparecer, aí sim, na condição de
Pássaro Encantado, finalmente liberto
da gaiola dos desafios que juntos aprendemos
a enfrentar e vencer, exatamente como Deus
sempre esperou de nós.
Uma vez
novamente juntos, teremos condições de voar
livremente para qualquer parte, até onde o nosso
pensamento ousar chegar, e eu voltarei a ter a
quem contar meus sonhos de coragem, amor,
esperança, felicidade e
paz.