A VELHA CASA DO PÉ DA LADEIRA
 
Ariovaldo Cavarzan
 
Para se chegar à graminha, defronte à velha casa situada no pé da ladeira, tinha-se que passar através de um túnel sustido em arcos de ferro, enfeitados de parreiras e cachos, de vários tons e tamanhos, espichado da divisa do terreiro até o portão de entrada da pequena propriedade, encimado por pequeno sino pendente da ponta de um pedaço de antiga mola. Nas laterais dos arcos, videiras se esparramavam horizontalmente e tudo recendia a uva e vinho, em época de maturação das frutas.
 
A graminha era ponto de encontro de vizinhos e velhos amigos, cúmplices de rumorosas sestas pós sopas e polentas sorvidas nos jantares, e de rodas de bate papos ao ar livre, na boca da noite, à espera do sono benfazejo. Era nada mais que um barranco recoberto de capim, onde corpos cansados se esparramavam, de barrigas saciadas e imaginações férteis, olhos fitos num céu ainda a salvo da claridade de postes de iluminação, por inexistentes naquelas bandas da periferia.
 
Nessas ocasiões, vizinhos italianos enfeitavam de graça com seus dialetos, cotidianos festivais de lorotas e conversas fiadas, entremeadas de um ou outro caso mais interessante, como as explicações do Patriarca referentes às constelações zodiacais, identificando-as na eclíptica celeste e comentando-as à luz das profecias de Nostradamus, as quais conhecia muito bem.
 
O lampião a querosene há pouco havia sido aposentado e a televisão era algo ainda impensável para famílias e amigos acostumados a encontrar-se para conversar sobre simples questões pessoais, ou relatar  arrepiantes aventuras vivenciadas com curupiras, mulas sem cabeça, sacis pererês e lobisomens.
 
A paixão do Patriarca por astrologia e predições, remontava aos primórdios do século passado, quando dizia haver testemunhado uma das reaproximações do cometa de Halley, espetáculo que contava ter presenciado ao lado de sua então jovem esposa.
 
As profecias contidas nas célebres Centúrias, escritas na segunda metade do século dezesseis, vinham ao encontro das reflexões esotéricas então compartilhadas, na busca de explicações para os vaticínios de grandes calamidades e até mesmo do fim do mundo, precursoras de cada visita vagabunda do lendário cometa à órbita do nosso planeta.
 
O meu papel de menino era ouvir a tudo, calado e maravilhado ante a visão de alguns pontos luminosos que se deslocavam lá em cima, num céu ainda não invadido por rotas de voos comerciais, imaginando tratar-se de algum satélite artificial que, em seus bip-bips, completava mais uma volta, a exemplo dos russos sputiniks, hoje tristemente lembrados como precursores dos artefatos que levavam seres e organismos vivos à órbita planetária, como fizeram com a heróica cadela Laika, que nunca mais voltou. 
 
Vez ou outra, os velhos e fiéis cães Jolie e Nero se assustavam ante a aproximação de algum gato mais atrevido, saindo em sua perseguição, esganiçando latidos que nos traziam de volta ao chão firme da graminha, já denotando os primeiros sinais do orvalho da noite que havia chegado.  
 
A um solavanco bem coordenado, destramelava-se o portãozinho que dava acesso ao túnel de arcos da propriedade, ao som do badalar nervoso do sino, alardeando a nossa reentrada, depois de até amanhãs trocados com os demais sesteantes. 
 
O luar já se fazia derramar por entre os vãos do parreiral, desenhando um mosaico de luz no caminho de volta à velha casa do pé da ladeira.
 
 
19/01/2010     

 

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