A
graminha era ponto de encontro
de vizinhos e velhos amigos, cúmplices de rumorosas
sestas pós sopas e polentas sorvidas nos jantares, e de
rodas de bate papos ao ar livre, na boca da noite, à
espera do sono benfazejo. Era nada mais
que um barranco recoberto de capim, onde corpos cansados
se esparramavam, de barrigas saciadas e imaginações
férteis, olhos fitos num céu ainda a salvo da
claridade de postes de iluminação,
por inexistentes naquelas bandas
da periferia.
Nessas
ocasiões, vizinhos italianos enfeitavam de
graça com seus dialetos, cotidianos festivais de
lorotas e conversas fiadas, entremeadas de um ou outro
caso mais interessante, como as explicações do
Patriarca referentes às
constelações zodiacais, identificando-as na
eclíptica celeste e comentando-as à luz das
profecias de Nostradamus, as quais conhecia muito
bem.
O lampião
a querosene há pouco havia sido aposentado e a
televisão era algo ainda
impensável para famílias e amigos acostumados
a encontrar-se para conversar sobre simples
questões pessoais, ou relatar arrepiantes
aventuras vivenciadas com curupiras, mulas sem
cabeça, sacis pererês e
lobisomens.
A paixão
do Patriarca por astrologia e predições, remontava
aos primórdios do século passado, quando dizia haver
testemunhado uma
das reaproximações do cometa de Halley,
espetáculo que contava ter presenciado ao lado de sua
então jovem esposa.
As
profecias contidas nas célebres Centúrias,
escritas na segunda metade do século dezesseis, vinham
ao encontro das reflexões esotéricas então
compartilhadas, na busca de explicações para
os vaticínios de grandes calamidades e até mesmo do fim
do mundo, precursoras de cada visita
vagabunda do lendário cometa à órbita do nosso
planeta.
O meu
papel de menino era ouvir a tudo, calado
e maravilhado ante a visão de alguns
pontos luminosos que se deslocavam lá em
cima, num céu ainda não invadido por rotas de
voos comerciais, imaginando
tratar-se de algum satélite artificial que, em seus
bip-bips, completava mais uma volta, a exemplo dos
russos sputiniks, hoje tristemente lembrados como
precursores dos artefatos que levavam seres e
organismos vivos à órbita planetária, como fizeram
com a heróica cadela Laika, que nunca mais
voltou.
Vez ou
outra, os velhos e fiéis cães Jolie e Nero se
assustavam ante a aproximação de algum
gato mais atrevido, saindo em sua perseguição,
esganiçando latidos que nos traziam de volta ao chão
firme da graminha, já denotando os primeiros sinais do
orvalho da noite que havia
chegado.
A um
solavanco bem coordenado, destramelava-se o portãozinho
que dava acesso ao túnel de arcos da propriedade, ao som
do badalar nervoso do sino, alardeando a nossa
reentrada, depois de até amanhãs trocados com os demais
sesteantes.
O luar já
se fazia derramar por entre os vãos do parreiral,
desenhando um mosaico de luz no caminho de volta à velha
casa do pé da ladeira.
19/01/2010
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