RESTOS

Ariovaldo Cavarzan 

Há restos juntados em refolhos de coração, pedaços de lida espalhados, esvoaçantes, sem ordem, sem vida e sem emoção. Imperioso tentar compor um painel de saudade, garimpando fragmentos, feito artesão de coisas do amor, que junta respingos de euforia e dor.

Lembranças é o que ficou, de um passado de sonhos, que se acabou. Há marcas pelo chão, pegadas de tempos idos, ora seguindo em frente e ora voltando, às vezes leves, outras mais profundas, como se calcadas por pés estancados, talvez indecisos, ou, quem sabe, cansados de caminhar.

Juras de eterna lembrança, convertidas em nunca mais. Momentos marcados, em pedaços guardados no fundo do coração. Metamorfose de alegria em dor, de ilusões em tristeza, feito espinho que rasga a pele, ou navalha pisada ao acaso, em cansado caminho.

Folhas mortas dançam a esmo um balé de borboletas, ciciando segredos ao sopro uivante do vento, em rodopios de fragmentos desgarrados de um todo, que não mais se sustém. Há presságios no ar, indícios de tudo acabado. A calma e escura noite se apronta para envolver em seu manto o confuso painel de lembranças, transmudado em amontoado de restos molhados em lágrimas.

Apenas restos. Nada mais.

 

 

 

02/12/2009
 
 
Formatada com carinho, para o poeta.

 

Todos os créditos a quem de direito.

Tube: SDT

Formatação: Vera Jarude

Música: Chora Peito

 

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