Confissões de um
teatro
Augusta
Schimidt
Confesso que ando um
tanto desencantado com a vida. Também não é para
menos... Ao longo dos anos, desde que nasci tive
dias de relevante importância, de grandes
alegrias e glórias. Sempre fui a forma que o
homem descobriu para manifestar seus sentimentos
de amor, ódio e dor
.
Fui palco de deuses e heróis, de
grandes emoções, de choros e risos, tanto de
gente grande quanto dos pequeninos.
Tudo bem que já quase morri. Com
o advento do Cristianismo, quando eu ainda era
uma criança e começava a caminhar, por falta de
apoio, me acharam pagão. Adormeci, o triste sono
da desilusão...Tristes tempos
aqueles!
Mas me acordaram os nobres e reis
e voltei a crescer, caminhando para a glória.
Incansável dei espaço aos grandes concertos,
onde a música dos grandes mestres ficou
impregnada em minhas paredes. Grandes
tempos...
Também fui palco de
grandes tragédias, de dramas e comédias, de
bailados apaixonados. Vi centenas de vezes olhos
brilharem de encanto diante do Lago dos Cisnes,
do Quebra – Nozes do mestre Tchaikovsky ,
dos Pas de bourée, Pas de deux e Grand
Plié.
O tempo foi passando e eu me
agigantando. Veio a modernidade, depois a
globalização e eu fui perdendo meu espaço. Já
não me amam tanto. Em alguns lugares estou até
deteriorando. Tomo chuva em meu interior, minhas
cadeiras estão rasgadas, minhas luzes quase
apagadas. Quantas vezes tenho sido trocado por
shows em estádios, aglomerações de massa... Em
pleno século XXI, eu Teatro, perdi a
graça.
O que me consola é
pensar que um dia já fui rei, adormeci e voltei.
Estou triste sim, mas não perco as esperanças.
Vou lutar e quiçá nem tenha tanto que esperar
pelo meu novo
renascer.
Campinas/13/4/2008
Arte
Vera Jarude
Imagem: Teatro Amazonas
Formatada com carinho, para a
poeta.
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