A outra margem
Era garotinho,
tinha, talvez uns oito anos, frequentava a escola primária que
ficava a cerca de 5 klm de minha casa, lá na aldeia. Fazia o
trajecto a pé, pela estrada asfaltada que atravessava a
aldeia, mas logo que as chuvas acabavam e vinham as cores da
primavera, regressava a casa por um trilho que passava junto
do meu rio.
Nos fins de Maio,
sentava-me na margem à sombra dum velho salgueiro
florido, comendo uma mão cheia de cerejas que tinha colhido
nas cerejeiras do caminho.
Olhava a outra
margem do meu rio e tentava adivinhar o que haveria naquela
margem onde nunca se viam pessoas, apenas os enormes
pinheirais que partiam da margem até se perderem lá nos
confins do alto da serrania, no horizonte
E pensava: que
mistérios esconderá aquela margem? Haverá por lá alguma das
bruxas más, ou alguma princesa encantada das que minha avó,
nas noites de Inverno, à lareira, nos contava com aquela voz
melodiosa que só as avós têm?
Senti várias vezes
a tentação de me lançar ao rio, nadar até à outra margem para
desvendar esses mistérios que me intrigavam. E, um dia em que
o rio já era menos caudaloso, por falta das chuvas de Inverno,
pousei a sacola tirei minhas roupas e, completamente nuzinho
como tinha vindo ao mundo, lancei-me ao rio e nadei até à
outra margem.
Cauteloso,
caminhei alguns metros, com as mãos em concha tapando meu
inocente fruto, com medo que alguma dessas bruxas más me
raptasse. Um lagarto assustado a rastejar sobre as folhas
secas, fez tal ruído que a meus ouvidos pareceu um
terremoto.
Mais assustado que
o pobre lagarto, regressei à minha margem, muito mais segura,
embora muito menos excitante.
No dia seguinte
voltei à outra margem do meu rio. Agora mais confiante pois
minha mãe me assegurara que já não havia bruxas más nem
princesas mouras encantadas.
Então, quando pus
os pés na outra margem, senti-me um Vasco da Gama ou um Pedro
Alvares Cabral descobridores temerários que a professorinha
ensinava lá na escola.
E tantas vezes
atravessei o meu rio, fiz tantas descobertas por lá que a
outra margem deixou de ter interesse para mim, uma vez que o
mistério que a envolvia deixou de existir e o interesse do
desconhecido é que me levava à aventura da outra
margem.
Pela vida fora,
foram surgindo no meu caminho, novas margens do lado de lá de
outros rios, com os seus encantos e mistérios, que fui
desvendando até que acabado o mistério, o desconhecido que me
entusiasmava, partia à procura de outro rio, com outra margem
enigmática, misteriosa, que eu tentava descobrir e desvendar
os mistérios que ela comportava.