Carta de
despedida ao Papai Noel
Tere
Penhabe
Santos, 19 de dezembro de
2008.
Querido Papai
Noel.
Não é segredo
para ninguém, que nós nunca tivemos uma boa
relação.
Talvez tenha
faltado discuti-la no passado, mas você, como todo homem,
sempre se negou a discutir a relação.
Preferiu me deixar
à sua espera indefinidamente, conforme os homens gostam de
fazer, vítimas da própria indecisão, arriscando-se a acabarem
sozinhos. E com você, foram anos de sacada, Papai
Noel!
Durante muito
tempo eu passei noites inteiras tentando imaginar como você
era. Na minha cabecinha
oca, às vezes era meigo e dócil, emanando ternura, muita
ternura. Outras vezes, bruto e impaciente, diante de
tantos pedidos e reclamações.
E um dia, eu
cheguei a imaginá-lo completamente bêbado, porque só isso
justificaria o seu descaso comigo, como eu já tinha visto
acontecer com meu pai... Mas os bêbados são tão feios, não é
mesmo, Papai
Noel?
Eu acho que foi
dessa vez que eu realmente me decepcionei com você. Até hoje
não sei se você era inocente ou se realmente "amarrou um
porre" naquele dia.
Mas era tão certo
que você viria! Minha mãe havia prometido e ela nunca prometia
o que não podia cumprir. Disse que você chegaria quando eu
fosse dormir, que eu fosse logo então... Será que ela só
queria livrar-se de mim naquele dia? Estava sempre tão
ocupada, com tantas peças para costurar, para entregar... bem
pode ter sido só um "passa fora" dela.
Nós não tínhamos
árvore de natal, você sabe. Era um luxo ao qual não
podíamos nos dar. Mas ela disse que isso não importava, que
você nem gostava muito de árvores de natal, preferia as
janelas e as chaminés.
Eu sempre ouvia
falar que precisávamos deixar os sapatinhos na janela para que
você chegasse, mas meus sapatos eram tão velhos, tão puídos!
Nos pés, até que ninguém notava, mas expostos na janela, para
toda a vizinhança... Eu não tive coragem, Papai Noel.
Coloquei apenas o meu par de meias da primeira
comunhão, que por ser branco, minha mãe não deixava
usá-lo. Dizia para eu reservá-lo para algum dia de festa, que
nunca chegou e os pés cresceram e eu perdi as meias sem usar
mais.
E
você, se as viu, ignorou-as, porque no dia seguinte elas
estavam lá, quietinhas do jeito que eu deixara, mas sem nenhum
sinal de que Papai Noel passara por ali.
Eu acho que foi
aí que eu cortei relações com você, definitivamente. E quando alguém
falava em Papai Noel, eu sempre saía com algo do tipo: - "Não
seja idiota, esse velho babaca não existe”. Mas era só
despeito... Eu achava que você existia sim, mas não queria
admitir que tinha me desprezado. Naquele tempo eu ainda não
sabia lidar com o desprezo, descaso... Depois aprendi, a vida
ensina tudo, é só ter força de vontade e disposição para
aprender.
E mais à frente,
quando cresci mais um pouquinho, eu descobri que se
você existia realmente, era só um velho safado e interesseiro.
Sim, porque até hoje, em todos os lugares em que alguém o
representa, está sempre rodeado de crianças, pega-as no colo,
tira retratos com elas... mas nunca com crianças
pobres.
Nenhuma criança de
pé no chão tem direito a sentar-se no seu colo ou cochichar ao
seu ouvido, como aquelas "pentelhas" riquinhas
fazem.
Vai daí Papai
Noel, que eu cheguei à conclusão que você é "penetra" na festa
do Menino Jesus.
Sim, porque ele, sendo meu pai ou meu irmão, ou sendo
esse símbolo do amor que eu vejo nele, o fato é que ele jamais
teria essa atitude leviana que você tem, ou que seus
representantes mostram que você
tem.
Portanto, Papai Noel,
saiba que está em maus lençóis. Ou você faz urgentemente,
algo para mudar o seu conceito, ou brevemente será
barrado nessa
festa.
Ninguém
mais e nem o Menino Jesus aguenta os desmandos do seu
comportamento, sempre atentos e dedicados ao consumismo
desenfreado e mais nada.
Em breve, muito
breve mesmo, você será considerado só um velho gagá, desses
nos quais ninguém presta atenção mais, e eu estou torcendo por
ver isso acontecer, pode crer. E não é por
vingança, de jeito nenhum! Eu já desejei muito me vingar de
você, mas passou.
Eu sei que você vai
me dizer que sempre esteve muito ocupado, por isso não pode me
dar atenção... Eu conheço essa desculpa de cor e salteado, mas
sabe Papai Noel, é uma questão de prioridade. E se eu nunca
fui sua prioridade, mas eu sei que fui, do Menino Jesus...
sempre que o chamei, Ele me atendeu, por mais ocupado que
estivesse. Portanto, nem
preciso dizer, não é Papai Noel? Eu acho que você está
chegando ao fim da linha... Também pudera! As suas renas já
estão trançando as pernas de tão velhas, e vivem debruçando-se
em cima de quem ousa se aproximar delas,
coitadinhas.
Por falar nisso,
uma amiga minha ganhou uma passagem para viajar no seu trenó.
Ela é extremamente otimista, ficou feliz com o presente e veio
me mostrar. Quando eu vi o assento que ela ia ocupar pelo mês
inteiro, cortou-me o coração, porque era óbvio demais: _ “isso
num vai prestá!", eu pensei... E não prestou
mesmo. A coitadinha andou tanto pra lá e pra cá,
sentada atrás do bumbum da rena, recebendo gazes da
danada na cara, que acabou apanhando uma gripe colossal
que quase culminou em pneumonia. Não foi por falta
de avisar, eu bem que disse: "Essa viagem é presente de
grego!" Dito e feito!
Pois é Papai Noel,
vou ficando por aqui. Esta foi a minha carta de
despedida para você. Porque muito provavelmente você sumirá do
mapa bem antes do que imagina.
Apesar do seu
descaso, da sua indiferença, eu sobrevivi a você, e receio que
vou assistir à queda do seu império. Então,
a menos que você mude de atitude... Boa derrocada, Papai
Noel!
Sem carinhos,
De quem é mais do
Menino Jesus do que
sua,
Eu
zinha
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