A calma e o pacifismo reinantes em St.
Mary Mead só poderiam me fazer muito bem.
Mesmo assim, o trabalho
voluntário na associação do bairro estava sendo maravilhoso para mim. Eu
estava encantada com o lugar.
Fora encarregada de ler as cartas
endereçadas ao Papai Noel e avaliar a possibilidade de atendimento dos
pedidos.
Tudo estava indo bem e eu pensava com alegria em como as
crianças precisam de pouco para serem felizes.
Ansiosa para encerrar
o dia, abri a última cartinha...
Uma letra benfeita, que só se
assemelhava à letra de uma criança, pela hesitação dos traços, como se
fossem feitos sem muita convicção. Eis que me vi diante de um dos meus
maiores desafios.
Anne Helier, uma menina de dez anos, pedia ao Papai
Noel que conseguisse para ela, uma audiência com Deus.
Instintivamente, guardei a carta para pensar sobre ela com calma.
Após o jantar, no silêncio da minha solidão, concluí que se Deus
havia me colocado no lugar do bom velhinho, certamente é porque me
julgava capaz de resolver esse desejo tão singular da menina
Anne.
Escrevi a ela, dizendo que sua audiência poderia ser marcada,
mas para esse tipo de agendamento, era preciso constar o assunto que
seria tratado, ao que ela me respondeu de imediato.
"Querido
Papai Noel...
Meu desejo era falar diretamente com ele, mas logo vi
que seria difícil.
Eu receio que fiz alguma coisa muito grave, que
por certo desagradou muito a Deus nos últimos tempos, e eu queria saber
se poderia consertar meu erro de alguma maneira.
É que sempre minha
mãe diz que as tristezas da nossa vida, são por conta das malcriações
que fazemos e que desagradam ao papai do céu.
Eu sinceramente não
lembro de nada, mas desde que meu irmãozinho nasceu, meu paizinho não
liga mais pra mim. Sempre que eu chego perto, ele diz que tá muito
ocupado, e eu sinto que ele não gosta mais de mim.
Como eu sei que o
meu irmãozinho foi um presente de Deus para o meu pai, que queria um
filho homem, eu suponho que ele tenha atendido o pedido, para me
castigar por algo que eu fiz.
Eu gosto muito do meu irmãozinho, sabe
Papai Noel? Mas eu gosto do meu pai também e o desprezo dele tem doído
muito!
Eu não sei direito onde é que dói, mas imagino que seja no
coração.
Fico aguardando o senhor convencer Deus a me ouvir.
Beijo da Anne."
Fiquei completamente aparvalhada com o que
li. Principalmente por se tratar de algo que eu sentira muito na minha
infância, e que na época não me pareceu passivo de reclamação. Admirei
aquela alma criança, lutando por seus direitos, o direito de ser
amada...
Estávamos providenciando mensagens para a comunidade e a
casa de Anne, recebeu mais de uma, que certamente foi lida com o
coração, porque na festa de confraternização, Papai Noel estava avisado
para me transmitir os recados que recebesse e um deles dizia exatamente
assim:
"Obrigada Papai Noel. Mesmo Deus estando ocupado, por
certo ele me perdoou. Meu paizinho já gosta de mim outra vez."
Nada é impossível, quando existe amor!
-Tere
Penhabe -
Santos_17.12.2004_
Todos créditos a quem de
direito.
Arte Vera Jarude
Tubes:KT,Mici e sandi